Há homens que envelhecem sem nunca terem deixado a infância.
Não no sentido da leveza, do brincar ou da curiosidade. Mas no sentido mais doloroso: seguem emocionalmente dependentes, famintos de acolhimento, incapazes de sustentar responsabilidade afetiva e permanentemente em busca de alguém que repare faltas antigas.
Em Canção para Ninar Menino Grande, Conceição Evaristo não nos entrega um vilão simples. E talvez isso seja o que mais incomoda. Fio Jasmin não cabe na categoria confortável do “homem mau”. Ele é mais complexo e, justamente por isso, mais real.
É um homem atravessado por ausências, carências e formas precárias de existir. Mas também é alguém que, a partir dessas faltas, distribui danos.
Essa distinção me parece fundamental:
ter sido ferido não autoriza ferir.
Muitas pessoas transformam a própria história em explicação para tudo o que causam. Como se dor passada funcionasse como absolvição moral presente. Não funciona.
Compreender a origem de um comportamento pode ampliar nossa leitura. Não elimina responsabilidade.
Fio Jasmin parece representar um tipo de masculinidade ainda muito reconhecível: homens que aprenderam a desejar antes de aprender a amar. Sabem seduzir, aproximar, fecundar, ocupar espaços íntimos. Mas não sabem permanecer, elaborar conflitos, cuidar do que criam ou sustentar vínculos que não girem em torno de suas necessidades imediatas.
São homens que confundem movimento com maturidade.
Transitarem por muitas vidas ( mulheres) não significa construir uma vida.
Também me chama atenção como ele se relaciona com o próprio vazio. Em nenhum momento parece verdadeiramente confrontá-lo. Segue respondendo aos impulsos, aos encontros, às oportunidades, como quem vive sempre de fora para dentro.
Há pessoas que passam décadas assim:
ocupadas demais para se escutarem,
ativas demais para se questionarem,
rodeadas demais para perceberem a própria solidão.
Nem todo vazio se manifesta em silêncio. Alguns aparecem em excesso de movimento.
Mas o livro seria menor se falasse apenas dele.
As mulheres ao redor de Fio Jasmin são igualmente centrais. E despertam sentimentos difíceis. Muitas leitoras sentem raiva delas ( Eu senti, confesso), mas compreendo essa reação.
Raiva ao vê-las aceitar migalhas.
Raiva ao vê-las insistir onde há sinais claros de abandono.
Raiva ao vê-las construir a própria identidade em torno de um homem indisponível.
Mas talvez seja preciso ir além da raiva.
Nem sempre essas mulheres permanecem por “fraqueza”. Muitas permanecem porque foram ensinadas, explícita ou silenciosamente, que amar exige suportar. Que insistir é virtude. Que maternidade preenche vazio. Que ser escolhida por um homem valida a própria existência.
O que parece escolha livre, às vezes, já vem profundamente moldado.
Ainda assim, o livro também convoca responsabilidade. Porque em algum ponto da vida, todos somos chamados a perguntar:
o que em mim continua alimentando aquilo que me fere?
Essa pergunta vale para elas. E vale para ele.
Talvez a tragédia maior da narrativa não seja um homem que machuca mulheres, nem mulheres que se submetem a ele. É algo mais amplo:
pessoas tentando curar faltas antigas através de vínculos incapazes de curá-las.
Ele busca em muitas o que nunca elaborou em si.
Elas buscam nele o reconhecimento que falta internamente.
Quando duas carências se encontram, muitas vezes chamam isso de amor.
Mas carência não é amor.
Dependência não é amor.
Repetição não é amor.
Conceição Evaristo escreve com a delicadeza de quem entende a dor humana sem romantizá-la. Ela mostra que a violência nem sempre chega em forma de grito. Às vezes chega em abandono contínuo, promessas vazias, presença fragmentada e afetos que nunca se responsabilizam.
E talvez a pergunta que fica seja profundamente clínica:
em que momento deixamos de ser apenas fruto da nossa história e passamos a ser responsáveis pelo que fazemos com ela?
Porque todos herdamos algo.
Mas nem tudo o que herdamos precisa continuar através de nós.